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Por que vim parar no Nepal 10 dias após o terremoto?

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Por que vim parar no Nepal 10 dias após o terremoto?

Era Sábado, dia 25 de Abril de 2015, eu estava acordando para mais um dia tranquilo em Dublin na Irlanda, ainda deitado acessei meu facebook e todos os canais de informação que eu sigo bombardeavam minha timeline com informações sobre um dos maiores terremotos que o Nepal já enfrentou, magnitude 7.9, até entao a informação era de que haviam centenas de mortos, milhares de feridos e centenas de casas destruídas.

Ao ter uma dimensao maior de tudo que estava acontecendo, a primeira coisa que pensei foi: “Como estao os meus amigos que moram no Nepal?!??”. Em 2013 eu havia feito trabalho voluntário em Kahtmandu, capital do país e desde entao regularmente eu mantinha contato com meus amigos locais. Eu precisava ter noticias.

Imediatamente mandei mensagem para todos, e fiquei o dia todo acompanhando as informaçoes sobre a situaçao no país e aguardando um sinal de vida dos meus conhecidos.

As timelines dessas pessoas comecavam a enxer de mensagens do mundo todo querendo ter noticias e ninguem respondia nada. O numero de mortos subia a cada hora, e minha preocupacao e angustia aumentavam proporcionalmente a esses numeros.

Aos poucos, fui recebendo mensagens de retorno e fui ficando mais tranquilo, pois todos estavam salvos, e suas familias estavam bem, apesar de quase todos terem perdido parcialmente ou completamente suas casas, o que era uma preocupacao que eles ainda nao sabiam como gerenciar.

Terça feira, 28 de Abril, 8 da manha, eu estava acordando pra mais um dia normal de trabalho, abri meu facebook, e um dos meus amigos em Kathmandu me mandou uma mensagem pedindo ajuda, pois a sua situacao estava dificil, sem dinheiro, sem trabalho (ele trabalhava em uma agencia de turismo) e sua casa nao estava oferecendo segurança para ele, sua esposa e seu filho.

Ler esta mensagem foi como receber um balde de agua fria quando voce menos espera, pois por alguns segundos, olhei ao meu redor e vi um quarto confortavel, casa segura, geladeira cheia de comida, agua a vontade e a certeza de que eu estava em uma cidade e país com total segurança. Eu me senti um nada, e tinha certeza que aquela vida, naquele momento, nao era mais o que eu queria pra mim.

Na mesma hora, criei uma campanha em meu facebook e instagram, para arrecadar fundos e mandar para o meu amigo. Foi ai que tudo começou. Pois no mesmo minuto muitas pessoas começaram a responder, compartilhar, mandar dinheiro, me ligar, e eu vi que existem pessoas boas no mundo, que querem realmente ajudar. Neste momento eu enxerguei que se eu fosse para o Nepal, mais pessoas ajudariam e com isso eu poderia ajudar mais e mais pessoas, famílias, enfim, não mensurei o tamanho da acao que poderia ser feita.

Peguei um onibus pro meu trabalho, e toda aquela tranquilidade me incomodava, pois as pessoas estavam levando suas vidas normais, e do outro lado do mundo, uma nacao inteira nao sabia como seria o dia de amanha.

Cheguei no meu trabalho, e fui imediatamente falar com uma grande amiga e companheira de trabalho, Camila Baptista, tambem brasileira, ela foi meu braço direito por mais de um ano, conselheira, apoiadora e muitas vezes foi o meu bom senso pra muitas decisões. Sabendo da sua forma de analisar os problemas da vida e sabendo da nossa amizade, fui direto pra sua mesa, e falei: “estou deixando a Irlanda, estou indo pro Nepal,” no primeiro momento ela simplesmente não acreditou, mas passamos o dia todo conversando sobre isso. Esse dia eu nao consegui pensar em mais nada. Analisei os pros e contras dessa minha decisao, e me dei um prazo para ter certeza do que queria.

No dia seguinte, acordei sabendo o que iria fazer. Fui ansiosamente pro meu trabalho, conversei com o diretor da empresa que trabalhava e amigos, informei que estava deixando a empresa, mas nao sabia ainda quando deixaria a Irlanda. Informei que eu trabalharia ate a sexta feira da corrente semana e pedi uma hora de folga para poder comprar minha passagem.

Sai desta conversa, e fui imediatamente comprar meu voo, a proxima data disponivel era na segunda feira seguinte, dia 4 de Maio, onde eu chegaria no Nepal na Terça dia 5. Isso me dava 4 dias para organizar tudo que eu tinha em casa, basicamente eu tinha que dar um jeito em tudo que construi em 5 anos e dois meses morando na Irlanda. Paguei o voo, voltei pro trabalho para deixar tudo organizado antes da minha saida e paralelamente a isso, eu fui tentar ver como seria o meu trabalho de ajuda no Nepal.

No mesmo dia, liguei em casa para falar principalmente com minha mae sobre a decisão, e ela ficou completamente chateada com minha decisão, chorou bastante, falou muitas coisas, mas hoje eu me coloco em seu lugar, e imagino que não deve ser fácil, um de seus filhos chegar do nada e falar que está largando tudo para ir para um País parcialmente destruído e com uma série de riscos.

Meu proximo passo foi tentar falar com ONG’s. Me perguntaram se eu era medico, enfermeiro ou engenheiro, eu disse que nao, e entao me falaram que nao havia sentido eu fazer parte de suas organizacoes, que eu nao era bem vindo neste momento.

Falei com amigos, e me falaram que estava muito perigoso, que nao havia comida, agua, a violencia estava aumentando, que todas as pessoas dormiam em barracas e que nao era o momento certo de ir.

Uma das pessoas me disse para aguardar eles construirem casas, e estruturarem comida e agua e entao seria o momento ideal para ir. Esta informacao na hora fez muito sentido, e eu fiquei pensando o que fazer. De repente, me veio uma certeza de que eu nao gostaria de estar no Nepal quando eles tivessem casas, comida, agua e seguranca, eu gostaria de estar la, exatamente para ajuda-los a trazer essa comida, construir essas casas e ter certeza de que eles teriam agua potavel.

Neste momento, decidi que eu levaria comigo comida para mim e mais duas pessoas por uma semana, uma barraca e estrutura de acampamento para duas pessoas, e desta forma eu poderia chegar la e nao depender de ninguem por alguns dias, e teria tempo para entender a logistica da situacao e entao buscar mantimentos tambem para mim, e assim foi feito.

Falei com um amigo local, ele se ofereceu para me buscar no aeroporto, e me disse que em frente sua casa tinha uma area que ele tava acampando que eu poderia ficar la, e que juntos ajudariamos como desse. Era tudo que eu precisava escutar. Fiquei mais tranquilo, organizei minhas coisas em Dublin e parti.

Kathmandu é uma cidade que foi construida a mais de 1.000 metros de altura, num vale, cercada por morros e pequenas montanhas. Quando o aviao estava pousando, tudo que se via eram tendas por todos os lugares, ate mesmo em areas abertas dentro do aeroporto, nao vi destruicao naquele momento, mas um numero massivo de tendas e barracas.

Meu amigo estava no aeroporto, me levou para sua casa, e demos uma volta pela cidade, para que eu pudesse entender um pouco da situacao na capital.

Neste dia, ele disse que nao dormiriamos na barraca, e sim em sua casa, e foi quando tive o meu primeiro contato com terremoto.

Eram 3 da manha, eu estava online com amigos e familia, e talvez por estar num quarto fechado, na internet com conhecidos, eu me via em qualquer lugar do mundo, menos no Nepal, foi quando a casa toda começou a tremer, e a terra começou a fazer um barulho que eu até entao nunca havia escutado, cachorros latindo, pessoas gritando e neste momento caiu a ficha de onde eu tava e um medo imensuravel bateu em mim, eu me levantei da cama e sai gritando pela casa “earthquake, earthquake” haviam 7 pessoas na casa, todos acordaram com a minha gritaria e deram meio que uma risada, e falaram: “fica tranquilo, esse tremor foi pequeno. Volte a dormir.”, eu nao entendi nada, voltei para o quarto e simplesmente nao consegui fechar os olhos.

Nos dias seguintes, eu entendi o que eles haviam falado, acredito que ao longo desses quase 40 dias que estou no Nepal, eu tenha passado por mais de 100 tremores, dentre eles o de 7.3 que aconteceu no dia 12 de Maio e matou centenas de pessoas.

Este ultimo que mencionei, eu estava em uma escola, a 9 horas de distancia de Kathmandu, estavamos derrubando algumas paredes que sobraram e que não estavam firmes, para podermos criar uma estrutura nova e segura para as crianças, quando de repente tudo tremeu de uma forma muito mais intensa, longa e assustadora. Todos rapidamente evacuamos o lugar que estavamos e por sorte nenhum problema maior aconteceu por lá.

Bem, esta é a primeira vez que conto em detalhes tudo que aconteceu desde a tomada de decisao até a minha chegada no Nepal, escreverei em outros posts um pouco mais sobre os projetos que me envolvi, sobre as mensagens de apoio e doacoes que recebi e sobre a minha visao de como ainda existem pessoas maravilhosas neste mundo.

Ainda fico mais 7 dias aqui no Nepal, e tenho mais 3 projetos voluntarios para concluir, vou escrevendo sempre que possivel.

Obrigado por todos que curtiram a minha página, sou muito grato a todos que querem acompanhar de perto toda essa nova experiencia.

Até breve!


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7 Comentários

7 Comments

  1. Bárbara

    14/06/2015 em 13h33

    Danni, orgulho mil de você desde o primeiro instante que soube da sua decisão. O medo faz parte, mas quando temos boas intenções tem sempre Alguém lá em cima olhando por nós. Te amo meu amigo.

    • mm

      Danniel Oliveira

      17/09/2015 em 16h10

      Obrigado Brabinha!
      Muito ler esta mensagem vindo de voce!
      Vamos sempre pra frente!
      Grande BEijo

    • mm

      Danniel Oliveira

      22/09/2015 em 01h53

      Barbrinhaaa!
      Agradeco muito sua atencao e carinho!
      Desde sempre acompanhando toda essa trajetória!
      Espero te ver em breve! 🙂

  2. Roselita

    15/06/2015 em 08h28

    Daniel!

    Sou tia de Serginho Lêdo (minha gratidão apoio dado a Serginho na Irlanda).
    Parabéns ao “MISSIONÁRIO” que grita dentro de você, que sacie a sede de AMOR ao próximo, Deus com certeza já tá conduzindo seus passos para doar um pouco de sí a quem realmente mais precisa neste momento crucial que vive nossos
    irmàos no Nepal

    • mm

      Danniel Oliveira

      22/09/2015 em 01h55

      Ola Roselita.
      Obrigado pela mensagem!
      Serginho é um grande amigo que admiro muito.
      Estarei em Recife logo mais, espero conhece-la e toda família!
      Abracos

  3. Patricia

    15/06/2015 em 10h27

    Sem palavras! Inspirador e de grande admiração!
    Parabéns ! São poucas pessoas que tem a coragem que você teve !

    🙂

    • mm

      Danniel Oliveira

      22/09/2015 em 01h55

      Obrigado Patricia! 🙂

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